Advaita

Sabedoria da não dualidade


I. O que é? Princípios Essenciais.

O Advaita Vedanta é uma “filosofia”, por assim dizer, que surgiu há muitos séculos na Índia, tendo a sua origem nos Vedas, as escrituras mais antigas e sagradas do Hinduísmo. Advaita literalmente significa “não-dualidade”, e Vedanta significa “a parte final (ou conclusão) dos Vedas”.

A doutrina principal do Advaita postula que apenas o Absoluto (Brahman) é Real e que o mundo (toda a criação) é irreal, sendo que toda e qualquer modificação, dualidade, pluralidade – seja objetiva ou subjetiva – é apenas uma superimposição, uma imagem que é sobreposta ao Absoluto através do poder da ilusão (maya). Como o Absoluto é imutável e sem atributos, a criação é negada, uma vez que o absoluto não pode criar, devido a sua própria “infinitude”, digamos assim, e também porque não pode haver nada “fora” ou “diferente” dele. O Absoluto é o oceano de Ser-Consciência-Beatitude (sat-chit-ananda), sendo Real, enquanto que tudo o que nele surge e desaparece é transitório, limitado e, portanto, irreal. Nas palavras de Shankara, o ensinamento Advaita central é que “o absoluto é real, o universo é ilusório, e a alma individual não é diferente do absoluto“. Embora a alma individual (jiva) seja vista como parte do mundo ilusório, e portanto irreal, a “testemunha” que há por trás dela (a Consciência), ou Eu Real, é idêntico ao Absoluto.

Para o Advaita a ilusão, ou ignorância espiritual, não é real, mas apenas uma falsa-percepção. Os Upanishads explicam que Maya (ilusão cósmica) causa o surgimento do universo e que avidya (ignorância individual) é responsável por o Absoluto Ser parecer ser uma multidão de almas individuais (jivas). Assim, através da ação inexplicável da ignorância, o Absoluto ou Eu Real (Brahman ou Atman), cuja natureza é Ser-Consciência-Beatitude, encontra-se preso em um complexo corpo-mente, acreditando-se e vivendo como se fosse um ser limitado e individual, enquanto que na verdade é apenas existência impessoal e eterna. A metáfora mais utilizada pelas escrituras é a situação de um homem que abre a porta de um quarto escuro e, naquele momento, uma corda que estava em uma prateleira cai no chão, e o homem, devido à pouca luz existente no recinto, acredita ter visto uma cobra, enchendo-se de medo. De igual maneira, ensinam os mestres, nós acreditamos ser um ser individual, limitado a um corpo-mente, vivendo em um mundo exterior, objetivo, substancial e real, enquanto que tudo isso não passa de um sonho, um engano, uma miragem. Nós somos, agora e sempre, apenas o Eu Real ou Self.

O obstáculo principal à liberação da alma (moksha ou mukti) é a falsa identificação do eu com o corpo-mente – em outras palavras, a ilusão de que o corpo-mente é “eu” ou “meu”, que estamos circunscritos a ele. Assim, os textos de Shankara (e os demais textos Advaita supervenientes) recomendam que a remoção dessa ilusão seja obtida pelo processo inverso de “des-superimposição”. Para isso o aspirante à iluminação deve desenvolver as seguintes características:

(1) Discernimento espiritual (viveka): saber separar o Real do irreal, o eterno do transitório, e ter a convicção de que apenas o Absoluto é real e tudo o resto é ilusão;

(2) Desapego: (vairagya): não desejar nada, nem neste mundo nem em vindouros. Não buscar a felicidade em nada que não seja o Eu Real;

(3) Seis virtudes: serenidade, autocontrole, cessação das atividades, equanimidade, concentração mental, e confiança (nos ensinamentos e no Guru);

(4) Desejo forte pela libertação (mumukshutva): desejar apenas iluminação, com a exclusão de todo o resto.

Assim equipado, o buscador deve aproximar-se de um Guru que seja um mestre espiritual iluminado e ouvir a verdade de que “eu sou Brahman” (shravana), refletir sobre ela até convencer-se completamente do seu conteúdo (manana) e meditar sobre ela (nididhyasana) até que a ilusão de ser um corpo-mente desapareça (samadhi).

Os Upanishads aconselham a prática de mentalmente rejeitar tudo, rejeitar a atenção a qualquer coisa que não seja o Eu Real, através da prática neti, neti, que literalmente significa “não isto, não isto”. Também, através da repetição das chamadas “grandes frases” (mahavakyas), eliminar a falsa impressão de que somos uma personalidade ou individualidade e descobrir nosso verdadeiro ser. Tais frases são:

Eu sou Brahman (aham brahmasmi)

Você é Aquilo (tat vam asi)

Tudo é Brahman (sarvam khalvidam Brahman)

A Consciência é Brahman (prajnam Brahman)

Eu sou Ele (so ham)

Em síntese, tais são os princípios do Advaita Vedanta clássico e as práticas por ele aconselhadas. Por outro lado, os três mestres sobre os quais se encontra informação neste site, muito embora não tenham seguido ou estudado o Advaita, alcançaram a realização e expressaram a verdade que vivenciaram em termos idênticos àqueles encontrados nos textos de Advaita do passado. Nos ensinamentos desses três Gurus – que certamente foram os maiores e mais populares expositores da Não-Dualidade do século passado – encontra-se a verdade não-dual de uma maneira mais simples e acessível ao mundo contemporâneo e à mente ocidental em geral, bem como outras formas de prática que levam ao mesmo objetivo: a superação de todo sofrimento e limitação pela realização do nosso verdadeiro Ser.

Bhagavan Ramana Maharshi aconselhava a leitura dos seguintes textos da literatura Advaita:

Advaita Bodha Deepika

Yoga Vasistha

Ribhu Gita

Ellam Ondre

Kaivalya Navaneetha

Ashtavraka Gita

Sorupa Saram

O próprio Maharshi também traduziu alguns textos de Sri Shankara, entre eles o Vivekachudamani (versão em português), que é outro clássico. (A versão traduzida por Sri Ramana pode ser encontrada no seu livro The Collected Works of Ramana Maharshi).

Clique aqui para ver todos os textos disponíveis.


II – História. Desenvolvimento. Linhagem.

Para os Hindus, os Vedas são textos de autoridade espiritual incontestável, sendo chamados de shrutis (textos ouvidos) e encarados como fruto de revelação divina, sem autoria humana. A mensagem central dos Vedas é que o Eu Real é absoluto, imortal, sempre livre e sempre puro. Todos os outros textos nos quais as doutrinas e práticas Hindus são expostos são tidos como possuindo autores humanos, sendo chamados de Smritis (textos lembrados) e Puranas (narrativas antigas). A elaboração em prosa e verso da literatura Védica se extende no tempo desde o Rig Veda (em 1400 a.C.) até os Upanhishads (1000-500 a.C.).

O Vedanta é um dos seis sistemas ortodoxos (darsanas) de interpretação dos Vedas, tendo sido fundada pelo Rishi Badarayana (provavelmente século II d.C.). O cânone do Vedanta é os Upanishads, o Brahma Sutra, e o Bhagavad Gita. Os Upanishads se constituem na parte final de cada um dos quatro Vedas, a sua “conclusão”, contendo a sua essência filosófica e os ensinamentos a respeito de Brahman (o Absoluto), da criação do mundo, do Self,  e da libertação. O Brahma Sutra (também conhecido como Vedanta Sutra) é o texto do Rishi Badarayana que consolidou a escola Vedanta; nesta obra, o Rishi faz uma análise profunda e sistemática dos ensinamentos dos Upanishads e os apresenta de uma forma lógica e coerente. É datado, por alguns, do ano 500-200 a.C. e, por outros, do ano 200 d.C. Já o Bhagavad Gita é um grande clássico espiritual hindu, contendo os ensinamentos de Sri Krishna dados ao guerreiro-príncipe Arjuna, no campo de batalha. No entanto, foi apenas com o comentário de Sri Shankara ao Bhagavad Gita que este texto tornou-se amplamente conhecido e venerado.

Com o tempo surgiram diferentes escolas do Vedanta, sendo que a escola Advaita (“Não-Dualidade”) foi a que mais se destacou. Hoje pode-se afirmar, com propriedade, que o Vedanta impregnou tão profundamente o pensamento indiano que a espiritualidade hindu tornou-se essencialmente o Vedanta, com a interpretação não-dual sendo a mais influente.

O início formal do Advaita é considerado por muitos como sendo a grande obra Mandukya Karika de Gaudapada (século VII d.C.). Posteriormente, quando o Hinduísmo havia enfraquecido na Índia, quase que abrindo espaço exclusivamente ao Budismo, Sri Shankara restaurou o Vedanta sob o enfoque da filosofia Advaita por todo país, o que é certamente uma das razões de sua predominância sobre as demais escolas.

“Advaita” não é sinônimo de “Vedanta”, mas apenas uma de suas três escolas principais. Contudo, desde o início do Vedanta, passando por Gaudapada e Shankara, até o surgimento da escola Vishishtadvaita (não-dualidade qualificada), pode-se dizer corretamente que Vedanta era sinônimo de Advaita.

Tradicionalmente diz-se que a linhagem de gurus no Advaita inicia-se com Sri Dakshinamurti, passando por Shankara e seus discípulos. Outros gurus anteriores incluem: Narayana, Vasistha, Vyasa, Shuka, Gaudapada, Govinda, entre outros.

Swami Vivekanda (1863-1902), discípulo de Sri Ramakrishna Paramahansa, foi o primeiro Sábio Hindu a vir ao ocidente e expor a filosofia do Vedanta, tendo assim colaborado grandemente para a sua atual popularidade entre os círculos espirituais ocidentais. Posteriormente, Sri Ramana Maharshi (1879-1950) simplificou o Advaita e tornou-o acessível a todos.


Textos escritos com base nos livros:

AJATI. Garland of Advaitic Wisdom. Tiruvannamalai: Sage Press, 2002.

SRI KARAPATRA SWAMI. Advaita Bodha Deepika – The Lamp of Non-Dual Knowledge. Tiruvannamalai: Sri Ramanasramam, 2002.

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Você já leu algum dos textos clássicos do Advaita acima mencionados?

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