O Senso de “Eu sou” – Capítulo I do Livro EU SOU AQUILO – Conversas com Sri Nisargadatta Maharaj

O Senso de “Eu sou” –  Capítulo I do Livro EU SOU AQUILO – Conversas com Sri Nisargadatta Maharaj

Capítulo I do Livro EU SOU AQUILO – Conversas com Sri Nisargadatta Maharaj 

Tradução: Patricia de Queiroz Carvalho Zimbres

SatsangEditora1ª Edição – 2016

http://www.satsangeditora.com.br/

O Senso de “Eu sou”

Pergunta – Sabemos, por experiência cotidiana que, ao acordarmos, o mundo de repente aparece. De onde vem ele?

Maharaj – Antes que algo possa vir a existir, tem que haver alguém a quem esse algo venha. Toda aparição e desaparição pressupõe uma mudança que acontece sobre um fundo imutável.

P – Antes de acordar, eu estava inconsciente.

M – Em que sentido? No de ter esquecido ou no de não ter tido a experiência? Você não experiencia mesmo quando inconsciente? Você pode existir sem conhecer? Um lapso de memória é prova de não-existência? E seria válido falar de sua própria não-existência como uma experiência real? Você não pode sequer dizer que sua mente não existia. Você não acordou ao ser chamado? E, ao acordar, não foi o senso de “eu sou” o que veio primeiro? Alguma semente de consciência tem que existir, mesmo durante o sono ou o desmaio. Ao acordar, a experiência acontece como “eu sou – o corpo – no mundo”. Pode parecer que essas percepções ocorram em sucessão, mas, na verdade, é tudo simultâneo, uma única ideia de ter um corpo num mundo. Não poderia haver um senso de “eu sou” sem que eu seja alguém ou alguma coisa?

P – Sou sempre alguém com lembranças e hábitos. Não conheço outro “eu sou”.

M – Não haveria alguma coisa impedindo que você conheça? Quando você não conhece algo que outros conhecem, o que você faz?

P – Procuro a fonte desse conhecimento sob a orientação dessas pessoas?

M – Não é importante para você saber se é meramente um corpo, ou algo mais? Ou nada, talvez? Você não vê que todos os seus problemas são problemas do seu corpo – comida, roupa, abrigo, família, amigos, nome, fama, segurança, sobrevivência? Tudo isso perde o sentido no momento em que você se dá conta de que talvez você não seja um mero corpo.

P – Que vantagem há em saber que não sou o corpo?

M – Até mesmo dizer que você não é o corpo não é bem verdade. De certo modo, você é todos os corpos, corações e mentes e muito mais. Vá fundo no senso de “eu sou” e você descobrirá. Como você faz para encontrar uma coisa que você não sabe onde está, ou esqueceu onde colocou? Você pensa nela até lembrar. O sentimento de ser, de “eu sou”, é o que surge primeiro. Pergunte-se de onde ele vem, ou apenas observe-o em silêncio. Quando a mente permanece no “eu sou”, sem se mover, você entra num estado que não pode ser verbalizado, mas pode ser objeto de experiência. Tudo o que você tem a fazer é tentar, vez após vez. Afinal de contas, o senso de “eu sou” está sempre com você, só que você atou uma porção de coisas a ele – corpo, sentimentos, pensamentos, ideias, posses etc. Todas essas identificações são enganosas. Por causa delas, você pensa ser quem não é.

P – O que eu sou, então?

M –  Basta saber o que você não é. Você não precisa saber o que é. Porque na medida em que conhecimento significa descrição em termos do que já é conhecido, perceptiva ou conceitualmente, o autoconhecimento não é possível, porque o que você é não pode ser descrito, a não ser em termos de negação total. Tudo o que se pode dizer é “eu não sou isso, eu não sou aquilo”. Não se pode dizer, com um mínimo de sentido: “isto é o que eu sou”. Simplesmente não faz sentido. O que você consegue apontar como sendo “isso” ou “aquilo” não pode ser você. É claro que você não pode ser “algo” mais. Você não é algo que possa ser percebido ou imaginado. Entretanto, sem você, não pode haver nem percepção nem imaginação. Você observa o coração sentindo, a mente pensando, o corpo agindo; o simples ato de perceber mostra que você não é aquilo que você percebe. Pode haver percepção ou experiência sem você? Uma experiência tem que “ser” de alguém. Alguém tem que vir e declarar que a experiência é dele. Sem um experienciador, a experiência não é real. É o experienciador que confere realidade à experiência. Uma experiência que você não pode ter, que valor teria ela para você?

P – O senso de ser um experienciador, o senso de “eu sou”, não é também uma experiência?

M –  É óbvio que sim. Qualquer coisa que tenha sido objeto de experiência é uma experiência. E em cada experiência surge seu experienciador. A memória cria a ilusão de continuidade. Na verdade, cada experiência tem seu próprio experienciador, o sentido de continuidade se deve ao fator comum na raiz de todas as relações experienciador-experiência. Identidade e continuidade não são a mesma coisa. Da mesma forma como todas as flores têm sua própria cor, mas todas as cores são causadas pela mesma luz, muitas experiências surgem na consciência indivisa e indivisível, cada uma delas distinta na memória, mas todas idênticas em sua essência. Essa essência é a raiz, a base, a possibilidade fora do tempo e do espaço de todas as experiências.

P – Como chegar até ela?

M – Não é preciso chegar até ela, pois ela é o que você é. Ela chegará até você, se você lhe der uma chance. Livre-se de seu apego ao irreal, e o real, rápida e suavemente, tomará o lugar que lhe é de direito. Pare de se imaginar sendo ou fazendo isso ou aquilo, e a realização de que você é a fonte e o coração de tudo despontará em você. Com isso, virá um imenso amor que não é escolha, nem predileção, nem apego, mas um poder que torna todas as coisas adoráveis e dignas de amor.

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