SOMOS FELIZES? – Capítulo II do Livro MAHA YOGA – A Yoga de Sri Ramana Maharshi

SOMOS FELIZES? – Capítulo II do Livro MAHA YOGA – A Yoga de Sri Ramana Maharshi

SOMOS FELIZES?

Capítulo II do Livro MAHA YOGA – A Yoga de Sri Ramana Maharshi

Satsang Editora – 2º Edição – 2016

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ramana maharshi

SOMOS FELIZES?

Este mundo representa para nós um meio para atingirmos um objetivo, qual seja, a felicidade – pelo menos, assim o é para a maioria de nós. Existem pessoas que afirmam que estamos aqui para o bem do mundo e não para o nosso próprio bem. Querem dizer que não devemos viver para nós mesmos, mas para o mundo. A verdade, no entanto, é bem outra. A verdade é que vivemos para nós em primeiro lugar, e também para o mundo na medida em que o bem do mundo coincide com nosso próprio bem. Assim sendo, devemos considerar, de vez em quando, se já encontramos a felicidade e, caso negativo, saber por que não; devemos refletir se, ao procurarmos a felicidade neste mundo e através dele, não adotamos suposições falsas.

Começamos a vida supondo que podemos ter felicidade neste mundo e através dele, e a maioria das pessoas continuam com essa crença até o fim. Tais pessoas nunca fazem uma pausa para meditar; não observam que suas esperanças de felicidade não se realizaram plenamente. Como, então, poderão considerar ainda a pergunta: por que essas esperanças têm sido infundadas?

Nenhuma das religiões e filosofias do mundo pode fazer por nós o que podemos fazer por nós mesmos, se pararmos para refletir; pois o que delas obtemos não passa de congestão mental – simples modismos de pensamento e de linguagem, que não se coadunam com o que realmente somos.

Somente o que descobrimos por nós mesmos, por nossa própria experiência, pode nos ser de real valor. Além disso, nada poderemos encontrar de real valor, nem mesmo através de nossa própria experiência, se não pararmos e refletirmos. Se essas religiões e filosofias apenas abreviarem a chegada do dia em que paramos e pensamos, já terão feito bastante por nós.

O que nos impede de parar e pensar é a crença de que estamos conseguindo da vida – ou de que logo conseguiremos – aquilo que queremos: a felicidade. O que pode provavelmente abalar essa crença é a experiência do lado trágico da vida. Diz-nos o Sábio de Arunachala que este é o meio usado pela Natureza, e nos dá a analogia dos sonhos como prova. Quando sonhamos com coisas agradáveis não despertamos; mas acordamos tão logo apareçam visões desagradáveis. Uma vida de tranquilo deleite é, naturalmente, contrária à reflexão profunda sobre assuntos sérios; e, sob esse aspecto, pessoas religiosas não são melhores do que nós.

Suponhamos que achemos a vida frustrante – senão totalmente intolerável – e que assim a achamos, quer por nossa própria conta, quer como representantes da humanidade.

Seria bom que fizéssemos essa suposição, pois essas investigações destinam-se apenas aos que partem desta premissa. Na verdade, a maioria de nós já considerou a vida assim, e não uma só vez, mas repetidamente.

Que fizemos cada uma dessas vezes? Consultamos sacerdotes ou videntes, ou oramos a Deus. Estes são os remédios populares para a doença que aflige a todos nós. Essas atitudes só têm adiado a crise; e será sempre assim, até pararmos e pensarmos.

Buscamos a felicidade ao longo da nossa vida. Já estivemos muitas vezes a ponto de consegui-la e fazê-la nossa para sempre, mas fomos sempre enganados. Apesar disso, sem pararmos para pensar – como devemos fazer agora – simplesmente continuamos da mesma velha maneira. Se agora pararmos e pensarmos, surgirá o pensamento de que provavelmente partimos em busca da felicidade sem termos uma compreensão adequada da sua verdadeira natureza e origem.

Primeiramente, examinemos a felicidade e descubramos o que ela é. O que queremos significar por felicidade é um estado constante – algo que viverá dentro de nós com todo seu frescor e pureza enquanto existirmos. O que o mundo nos tem oferecido não é nada disso, mas sim algo efêmero e inconstante, cujo nome adequado é prazer. Felicidade e prazer são duas coisas inteiramente diferentes. No entanto, supomos que os prazeres são a própria estrutura da felicidade. Presumimos que se conseguirmos, diuturnamente, um constante fluxo de prazeres, teremos nos assegurado a felicidade.

Mas é da própria natureza do prazer ser inconstante; pois ele é apenas nossa reação ao impacto das coisas exteriores. Certas coisas nos dão prazer e procuramos adquiri-las e conservá-las; todavia, os mesmos objetos não dão sempre o mesmo prazer. Às vezes, trazem até sofrimento. Dessa forma, frequentemente somos iludidos pelo prazer que procuramos e nos candidatamos ao sofrimento. Prazer e sofrimento são, na verdade, companheiros inseparáveis.

O Sábio de Arunachala nos adverte de que o prazer real não advém de coisas materiais. Se o prazer que experimentamos na vida se originasse dessas coisas, ele deveria ser maior quando possuíssemos mais coisas, menor se as tivéssemos menos, e nulo quando nada tivéssemos – mas não é bem assim. O rico que possui coisas em abundância, não é infalivelmente feliz; nem o pobre que muito pouco tem, é a rigor infeliz. E todos se sentem sumamente felizes quando conseguem um sono profundo e sem sonhos. Para assegurar-nos o gozo de um sono imperturbável, suprimo-nos de todos os meios artificiais disponíveis – colchões e travesseiros macios, mosquiteiros, mantas ou refrigeração, e assim por diante. A insônia é considerada um terrível mal. Para combatê-la, os homens envenenam a própria fonte vital – o cérebro – com drogas nocivas à saúde. Tudo isso mostra o quanto gostamos de dormir, e gostamos porque no sono profundo somos felizes.

Justifica-se, assim, nossa suspeita de que a verdadeira felicidade é – como muitos homens sábios já disseram – algo que pertence à nossa própria natureza interior. Os Sábios sempre ensinaram que o prazer não tem existência independente; não reside em objetos externos, parecendo ser assim por mera coincidência. O prazer decorre de uma liberação de nossa própria felicidade natural, aprisionada nas profundezas de nosso ser. Tal liberação ocorre justamente quando, após uma busca um tanto penosa, obtemos o objeto desejado ou afastamos algo indesejável. Igual a um vira-lata que, ao roer um osso sem carne e, degustando seu próprio sangue, supõe que o sabor está no osso, nós achamos que os prazeres estão nas coisas que procuramos e conseguimos. Pode-se dizer que o desejo é a causa de estarmos exilados da felicidade que se encontra dentro de nós, e com sua cessação – mesmo que momentânea – podemos provar um pouco desta felicidade.

Por estarmos, na maioria das vezes, desejosos de obter algo ou de nos livrarmos de algo, é que somos infelizes a maior parte do tempo. O desejo de nos livrarmos de algo é fruto do medo. Dessa forma, o desejo e o medo são os dois inimigos da felicidade, e enquanto consentirmos em continuar sujeitos a eles não seremos realmente felizes. Estar sujeito ao desejo ou ao medo é em si mesmo infelicidade, e quanto mais intensos for o desejo ou o medo, mais profunda a infelicidade.

O desejo sempre nos diz: “Consegue isto e serás feliz”. Acreditamos implicitamente nessa promessa e saímos à procura. Somos infelizes porque desejamos, mas, na tentativa de obter, esquecemos a infelicidade. Se não conseguirmos o que

desejamos, sofremos; mas tampouco seremos felizes se obtivermos a coisa desejada, porque o desejo nos mostra, então, uma outra coisa a ser buscada, e assim não percebemos como o desejo nos engana todo o tempo. O fato é que o desejo é como um buraco sem fundo, que nunca pode ser preenchido, ou como um fogo consumidor que, quanto mais é alimentado, mais ardentemente queima. 1

Assim como o desejo não tem fim, tal também é o medo, porque são intermináveis as coisas que o medo nos manda evitar.

Desse modo chegamos à conclusão de que, enquanto o desejo e o medo tiverem poder sobre nós, não alcançaremos a felicidade. Se nos contentarmos em ficar sob seu jugo, devemos, como seres racionais, renunciar a toda esperança de felicidade.

Mas sabendo que o desejo e o medo são nossos inimigos, não podemos simplesmente expulsá-los pela nossa força de vontade? A resposta que a experiência nos oferece é “não”. Podemos, como os estoicos, lutar com eles e conseguir vencê-los durante algum tempo. Mas a vitória não perdura e, finalmente, desistimos da luta. Sem auxílio de outrem, sentimos que não podemos esperar alcançar a libertação definitiva. E quem poderá nos ajudar, senão alguém que já tenha superado desejo e medo e conquistado a felicidade perfeita?

É tal pessoa que devemos procurar e achar, se decidirmos sincera e seriamente livrar-nos desses nossos inimigos – os inimigos de nossa felicidade. Somente essa pessoa pode nos mostrar a senda e também nos dar a força necessária para percorrê-la, pois conhece tanto o objetivo como o caminho. A sabedoria antiga nos diz – e agora vemos com que exatidão – que se procuramos, com veemência, a libertação, devemos encontrar e inquirir aquele que já despertou. Assim como um doente tem de sair à procura de quem o cure, aquele que sente intensamente a necessidade de um remédio para os males inerentes à vida sente-se compelido a buscar alguém que o guie pela trilha certa.

Já houve homens no passado que conquistaram a verdadeira felicidade para si mesmos e puderam, dessa forma, auxiliar também os outros. O que ensinaram a seus discípulos está registrado, com certa fidelidade, nas escrituras das religiões que se supõe que eles fundaram. Mas os registros de que agora dispomos estão incompletos e mais ou menos deturpados, em virtude da falta de clareza por parte de quem os escreveu. Tais ensinamentos foram passados oralmente, sendo escritos somente muito tempo depois que os Mestres já haviam falecido.2 Não podem ter para nós o mesmo valor que as palavras ouvidas de um Mestre vivo; e isso não somente porque podemos ter a certeza de que o ensinamento é autêntico, mas também – ou principalmente – porque o Mestre vivo é um centro de poder espiritual, que é o que necessitamos. Tal Mestre é o Sábio de Arunachala.

1.Ver também Guru Vachaka Kovai, versos 371 e 592.

GVK, 371: “Antes de se obter um objeto desejado, o desejo intenso faz mesmo um átomo parecer [do tamanho do] Monte Meru. Contudo, quando o objeto desejado é alcançado, em contraste total, o Monte Meru parece ser um átomo. Como o desejar nos mantém sempre pobres, nós nunca vimos em parte alguma um abismo sem fundo que é tão impossível de preencher quanto os desejos, que nunca podem ser satisfeitos.” [N.T.]

GVK, 592: “Ao derramar ghee [manteiga líquida] no fogo ele se aviva e não se extingue. Igualmente, o fogo dos desejos não é apagado por meio da alegria intoxicante que advém da satisfação dos desejos”. [N.T.]

2. Da incompletude dos Evangelhos cristãos exsurge disto: há quase que nada, naquela revelação, acerca da Liberdade e do caminho rumo a ela. Há apenas uma frase solta que demonstra que Jesus deve ter passado esse tipo de ensinamento a pelo menos um discípulo. Em resposta à pergunta “Como podemos nos libertar?”, o Mestre disse: “Conheceis a Verdade e a Verdade vos libertará”. Mas não há nada mais nos quatro Evangelhos e no resto do Novo Testamento que poderia ser de qualquer ajuda àquele que busca a Libertação. Certamente, os discípulos para quem Jesus ensinou essa sabedoria (suprema) não foram os responsáveis pela composição dos Evangelhos.

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