Autorrealização

Sobre a Autorrealização

(conversa n. 487, do livro Talks with Sri Ramana Maharshi)

 

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D.: Qual é o propósito da Autorrealização?

M.: A Autorrealização é a meta final e o fim em si mesmo.

D.: Quero dizer, qual é a utilidade da Autorrealização?

M.: Por que você deve buscar a Autorrealização? Por que você não fica contente com o seu estado atual? É evidente que você está descontente com o estado atual. Esse descontentamento termina se você realizar o Ser.

D.: O que é essa Autorrealização que afasta o descontentamento? Estou no mundo e existem guerras nele. A Autorrealização pode por um fim nisso?

M.: Você está no mundo ou o mundo está em você?

D.: Não entendo. É evidente que o mundo está à minha volta.

M.: Você fala do mundo e dos acontecimentos nele. Eles são simples ideias na sua mente. As ideias estão na mente e a mente está dentro de você Assim, o mundo está dentro de você.

D.: Não consigo lhe acompanhar. Mesmo que eu não pense no mundo ele ainda existe.

M.: Você quer dizer que o mundo é separado da mente e que pode existir na ausência dela?

D.: Sim.

M.: O mundo existe no seu sono profundo?

D.: Existe.

M.: Você o vê no seu sono?

D.: Não, mas os outros que estão acordados o veem.

M.: Você se apercebe disso no seu sono ou pelo conhecimento dos outros, agora?

D.: No meu estado de vigília.

M.: Então você fala do seu conhecimento da vigília e não da experiência no sono profundo. A existência do mundo nos seus estados de vigília e de sonho é admitida porque eles são produtos da mente. A mente fica recolhida no sono profundo e o mundo permanece em forma de semente. Ela se manifesta outra vez quando você acorda. O ego brota, se identifica com o corpo e vê o mundo. Assim, o mundo é uma criação mental.

D.: Como pode ser isso?

M.: Você não cria um mundo no seu sonho? O estado de vigília também é um sonho prolongado. Deve existir alguém que vê atrás das experiências da vigília e do sonho. Quem é esse que vê? É o corpo?

D.: Não pode ser.

M.: É a mente?

D.: Deve ser.

M.: Mas você permanece na ausência da mente.

D.: Como?

M.: No sono profundo.

D.: Não sei se eu existo no sono profundo.

M.: Se você não existisse, como se lembra das experiências de ontem? É possível ter havido uma interrupção na continuidade do “eu” durante o sono?

D.: Pode ser.

M.: Se é assim, um Pedro pode acordar como um João. Como a identidade do indivíduo seria estabelecida?

D.: Não sei.

M.: Se esse argumento não está claro, siga uma linha diferente. Você admite “eu dormi bem”, “sinto-me revigorado após um sono profundo”. Então, o sono foi sua experiência. O experimentador agora se identifica com o “eu” que fala. Assim, este “eu” deve ter estado no sono também.

D.: Sim.

M.: Então o “eu” estava no sono profundo; se o mundo existisse lá ele diria que ele [o mundo] existia?

D.: Não. Mas o mundo me fala de sua existência agora. Mesmo se eu negar sua existência, eu posso me chocar contra uma pedra e ferir meu pé. O ferimento prova a existência da pedra e também do mundo.

M.: Certo. A pedra machuca o pé. E o pé diz que a pedra existe?

D.: Não – “eu” digo.

M.: Quem é este “eu”? Não pode ser o corpo e nem a mente, conforme vimos antes. Este “eu” é aquele que experimenta os estados de vigília, sonho e sono profundo. Os três estados são modificações que não afetam o indivíduo. As experiências são como as imagens que passam na tela do cinema. O aparecimento e o desaparecimento das imagens não afetam a tela. Da mesma forma, também os três estados se alternam e o Ser não é afetado. Os estados de vigília e sonho são criações mentais. Assim, o Ser abriga tudo. Saber que o Ser permanece feliz em sua perfeição é a Autorrealização. Sua utilidade está na realização da Perfeição e assim da Felicidade.

D.: Pode haver felicidade total em permanecer Autorrealizado, se não contribuímos para a felicidade do mundo? Como pode alguém ser tão feliz quando há guerras em alguns países? Não é egoísmo permanecer Autorrealizado sem ajudar o mundo?

M.: Foi-lhe salientado que o Ser abriga o universo e também o transcende. O mundo não pode permanecer separado do Ser. Se a realização desse Ser for chamada de egoísmo, esse egoísmo deve abrigar o mundo também. Ele não é desprezível.

D.: O homem realizado não continua a viver simplesmente como um ser não realizado?

M.: Sim, com a diferença de que o ser realizado não vê o mundo separado do Ser, ele possui o conhecimento verdadeiro e a felicidade interna do ser perfeito, enquanto que as outras pessoas veem o mundo separado, sentem a imperfeição e são infelizes. Por outro lado, suas ações físicas são semelhantes.

D.: O ser realizado também sabe que existem guerras acontecendo no mundo, assim como as outras pessoas.

M.: Sim.

D.: Como então ele pode ser feliz?

M.: A tela do cinema é afetada por uma cena de fogo queimando ou pelo mar subindo?  Assim se dá com o Ser.

A ideia de que eu sou o corpo ou a mente é tão profunda que não se pode abandoná-la, mesmo se convencido do contrário. Experimentamos um sonho e sabemos que ele é irreal ao acordar. A experiência da vigília é irreal nos outros estados, e assim, cada estado contradiz os outros. Eles são, portanto, meras modificações que acontecem naquele que vê, ou fenômenos que aparecem no Ser, que é imutável e permanece sem ser afetado por eles. Assim como os estados de vigília, sonho e sono são fenômenos, da mesma forma também o nascimento, o crescimento e a morte são fenômenos no Ser que continua inabalável e sem ser afetado. O nascimento e a morte são apenas ideias. Eles pertencem ao corpo ou à mente. O Ser existe antes do nascimento desse corpo e permanecerá depois da morte dele. Isso se dá com a série de corpos tomados sucessivamente.

O Ser é imortal. Os fenômenos mudam muito e parecem mortais. O medo da morte é do corpo e é devido à ignorância. A Realização significa o Verdadeiro Conhecimento da Perfeição e da Imortalidade do Ser. A mortalidade é apenas uma ideia e causa de infelicidade. Pela realização da natureza Imortal do Ser você se livra dela.

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  • Bom dia Ana!

    Muito obrigado por postar este texto, grato!

    Grande abraço,

    Fernando

    • Ana.bhakta

      Obrigada, Fernando. Os diálogos de Sri Ramana são sempre muito profundos e inspiradores.

      Om Namo Bhagavate Sri Ramanaya!