Maha Yoga – Parte III

A Maha Yoga de Sri Ramana

Parte III

Os trechos a seguir foram retirados do Capítulo XII do livro Maha Yoga, que já foi traduzido pelo Prof. Hermógenes e publicado no Brazil na década de 1950. Fizemos uma nova tradução do texto e há possibilidade de publicação neste ano (2011). Os trechos abaixo são provenientes da nova tradução. Em negrito são os subtítulos colocados pelo autor (K. Lakshmana Sarma) e, entre aspas (e em itálico), os ensinamentos do Maharshi.

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O CORAÇÃO.Não há necessidade de saber onde o Coração está e o que Ele é. Ele desempenhará seu papel se você se empenhar na Busca do Ser.

INTELECTO.O intelecto não pode deixar de imaginar o Ser como tendo o tamanho e a forma do corpo.

MENTE.A mente é como a lua, e a luz de sua consciência provém do Ser, que, assim, se assemelha ao Sol. Portanto, quando o Ser começa a brilhar, a mente torna-se inútil, tal como a lua durante o dia.

AUXÍLIO AOS OUTROS.O Sábio auxilia o mundo simplesmente por ser o Ser Real. O melhor meio de servir ao mundo é alcançar o Estado sem ego.” Em outra ocasião disse: “Se você está ansioso por auxiliar o mundo, mas pensa que não poderá fazê-lo alcançando o Estado sem ego, então entregue a Deus todos os problemas do mundo, junto com os seus.

VISÃO DA FORMA CÓSMICA DE DEUS TIDA POR ARJUNA.[1]Sri Krishna disse a Arjuna: ‘Não tenho forma e transcendo todos os mundos.’ Contudo, mostrou a Arjuna sua ‘forma cósmica’. Arjuna vê a si mesmo, os deuses e todos os mundos dentro dela. Krishna também disse: ‘Nem os deuses nem os homens podem Me ver’. E, apesar disso, Arjuna vê Sua forma. Krishna diz: ‘Eu sou o Tempo’. O Tempo tem forma? Novamente, se o universo fosse realmente Sua forma, deveria ser uno e imutável. Por que diz ele a Arjuna: ‘Veja em Mim tudo que você quiser ver’? A resposta é que a visão era mental – de acordo com os desejos do contemplador. Portanto, não deve ser interpretada literalmente. Não era uma visão de acordo com a Verdade de Deus. Chamam-na ‘visão divina’. Contudo, cada um a pinta de acordo com seus próprios pontos de vista. E também há um observador na visão! Se um hipnotizador lhe mostra algo, você diz que é truque, mas isso você diz que é divino! Por que essa diferença? Krishna deu a Arjuna o olho divino (divya chakshus) e não o Olho da Sabedoria (janana chaksus), o Olho que é Pura Consciência e que não tem visões. Nada que é visto é real.”

A AÇÃO DO YOGA E A RENÚNCIA DA AÇÃO. (Karma-Yoga e Karma-Sannyasa). Quando certa vez perguntado a respeito, o Maharshi não respondeu imediatamente, mas dirigiu-se à floresta da montanha[2], seguido pelo interlocutor, e tirou dois galhos de uma árvore. Talhou-os, transformando-os em bengalas, e deu uma ao interlocutor e a outra a alguém mais. Depois disse: “A confecção das bengalas é Karma-Yoga e a doação delas é Karma-Sannyasa”. O Sábio não as fez para si mesmo.

O CENTRO ESPIRITUAL não é geográfico. Inclui todos os homens. Tanto as forças destrutivas como construtivas pertencem a Ele.

CONCILIAÇÃO DAS DOUTRINAS DE SANKARA E RAMANUJA.[3] Ramanuja diz que o mundo é real, e que Maya não existe. Shankara nos exorta a descobrir a Realidade que sustenta o mundo sempre mutável. O que Ramanuja chama de mutabilidade, Shankara classifica como ilusão [maya]. “A diferença é apenas verbal. Ambas levam ao mesmo objetivo.

O SÁBIO MEDITA SOBRE DEUS? Meditar é pensar, e pensar é relativo ao esquecer. Aquele que esquece Deus deve pensar em Deus. O Sábio nunca esquece Deus, assim como nós nunca esquecemos nós mesmos. Portanto, ele não medita sobre Deus. Mas, como ele nunca esquece Deus, pode-se dizer verdadeiramente que ele está sempre meditando em Deus.”

VISÕES DE DEUS. Alguém que não tenha estudado os ensinamentos do Sábio, nem as escrituras, formulou uma série de perguntas, uma das quais é a seguinte: “Você já viu Deus?” O Sábio respondeu, rindo suavemente: “Se alguém tivesse aparecido para mim dizendo: ‘Eu sou Siva’, ou ‘Sou Rama’ ou ‘Sou Krishna’, eu poderia saber que tinha visto tal pessoa. Mas ninguém apareceu para mim, dizendo quem era.” A resposta estava de acordo com a ignorância do inquiridor. Deus, que é o Eu Real, não tem forma, e não pode ser visto como um objeto. Em outra ocasião, quando perguntaram ao Sábio sobre “ver Deus em todas as coisas” – que é uma prática prescrita na sabedoria sagrada –, ele respondeu: “Ver objetos e conceber Deus neles são processos mentais. Mas isso não é ver Deus, porque Ele está dentro”. A expressão “ver Deus em todas as coisas” significa a compreensão de que Deus é a Realidade na qual a manifestação do mundo é sobreposta. Isso se chama pravilapa drishti – lembrando a Verdade que subjaz à variedade – e é recomendado pelo Sábio como meio de purificar e fortalecer a mente.

POR QUE AS ESCRITURAS NÃO NOS DIZEM O QUE É O SER? Tudo que precisamos fazer para encontrarmos o Ser é remover os não eu, os revestimentos. Um homem em dúvida quanto ao que ele é dirige-se a alguém e lhe pergunta. Este lhe diz que ele não é uma árvore, nem uma vaca, e assim por diante, deixando evidente que ele não é outra coisa senão um homem. Se o sujeito não ficar satisfeito e perguntar: “Você não me disse o que sou”, a resposta será: “Eu não lhe disse que você não era um homem.” Se até mesmo assim ele não puder entender que é um homem, será inútil dizer-lhe. Dessa forma, [as escrituras] também nos dizem o que nós não somos, de modo que pela eliminação de tudo isso, encontraremos o Remanescente, o Eu Real.

COMO EMPREENDER A BUSCA “QUEM SOU EU?” A forma é subjetiva, não objetiva, de modo que não pode e nem precisa ser mostrada por outrem. Alguém precisa lhe mostrar o interior de sua própria casa? Se o buscador conservar sua mente imóvel, isso será suficiente.

RESPOSTA À PERGUNTA “QUEM SOU EU?” Uma resposta que surge na mente e através dela, não é resposta, em absoluto.” A resposta é o Estado sem ego.

O QUE É CONHECIMENTO DIRETO? As pessoas supõem que não existe Consciência separada dos pensamentos da mente. Portanto, pensam que só a percepção dos sentidos é conhecimento direto. Mas os objetos dos sentidos não se manifestam por si sós. Logo, a percepção sensorial não é conhecimento direto. O Ser existe por si mesmo e, por isso, o conhecimento do Ser é direto. Mas se perguntarmos às pessoas ‘Por acaso o Ser não é visto diretamente sem o intermédio de qualquer agente?’ elas não entendem, porque o puro Eu não lhes aparece com uma forma.

A VIDA ETERNA. Esquecer o Ser é morte; lembrá-Lo é Vida. Você deseja a vida eterna. Por quê? Porque a vida presente (na relatividade) é insuportável. Por que é assim? Porque ela não é a sua Natureza real. Na verdade, você é o Espírito puro; mas você o identifica com um corpo, que é uma projeção da mente, um pensamento transformado em objeto. E a mente, por sua vez, originou-se do puro Espírito. A simples mudança de corpo não adianta, porque simplesmente há uma transferência do ego para o novo corpo. Além disso, o que é Vida? É Existência (como Consciência), e isso é Você mesmo. Isso é verdadeira vida, e Ela é eterna (além do tempo). A vida no corpo é vida condicionada. Mas você é Vida Incondicional. Você recuperará sua verdadeira natureza como Vida não condicionada quando a ideia ‘eu sou o corpo’ cessar.

HÁ GRAUS DE REALIDADE? “Pode haver graus de experiência da Realidade – decorrentes do quanto nos libertamos de pensamentos – mas não há graus de Realidade.

PODEMOS PERDER O SER? Disse alguém: “A Bíblia declara que a alma pode ser perdida”. O Sábio então observou: “O ego pode (e deve) ser perdido, mas o Ser nunca.” “O sofrimento é devido ao grande número de pensamentos discordantes que reinam na mente. Se todos os pensamentos forem substituídos por um único pensamento, não haverá infortúnios. Então o sentimento de ser o agente das ações e a consequente expectativa dos resultados dessas ações cessarão.

A GÊNESE DO PRAZER. Quando um pensamento ocupa toda a mente, ele exclui todos os outros pensamentos. Então, esse pensamento único também desaparece no Ser, e a Bem-Aventurança se manifesta como prazer. Mas essa manifestação está no anandamaya[4]. A perfeita Bem-Aventurança só é alcançada quando todos os revestimentos são retirados.

IDENTIDADE ENTRE DEUS E O SER.Se Deus fosse diferente do Ser, então Ele não possuiria um Ser, o que é absurdo.

O VERDADEIRO ESTADO.Seu dever é simplesmente SER, e não ser isso ou ser aquilo. Quando o eu sai pela tangente, dizendo ‘eu sou isto’, é egoísmo, ignorância. Quando brilha como o puro ‘EU’ é o Ser.”


[1] O episódio aqui se refere a um relato muito conhecido no livro Bhagavad Gita. [N.T.]

[2] Montanha de Arunachala [N.T.]

[3] Shankara foi o codificador do Advaita Vedanta, doutrina hindu da não dualidade, baseada nos Upanishads; já Ramanuja advoga a doutrina da “Não Dualidade Qualificada”. [N.T.]

[4] O revestimento mais sutil que oculta o Ser. [N.T.]

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  • mauro

    Gostaria de adquirir o livro Maha Yoga com a nova tradução … é possivel ?

    Grato
    mauro

    • Ainda não foi publicado, Mauro. É para primeiro semestre de 2013.

  • carlos fernando jorge

    Ja enviei um email pedindo informações de como adquirir o livro. Ainda não tive resposta. Aguardo .
    Abraços Carlos

  • Oi Carlos,

    Parece que está havendo problema com o email do fornecedor. Estou tentando resolver essa questão.