Esquecer tudo é o meio supremo

Esquecer tudo é o meio supremo

 


Esquecer tudo é o meio supremo



M: Sábio filho, abandone a mente – o atributo limitador que origina a individualidade, assim causando a grande enfermidade de repetidos nascimentos e mortes – e realize Brahman.

D: Mestre, como se pode extinguir a mente? Não é muito difícil? Não é a mente muito vigorosa, inquieta e sempre vacilante? Como se pode renunciar à mente?

M: Abandonar a mente é muito fácil, tão fácil quanto amassar uma flor delicada, tirar um fio de cabelo da manteiga ou piscar os olhos. Não tenha dúvida. Para um buscador resoluto, senhor de si e não enfeitiçado pelos sentidos, que pelo intenso desapaixonamento se tornou indiferente aos objetos externos, não pode haver a menor dificuldade em abandonar a mente.

D: Como pode ser tão fácil?

M: A questão da dificuldade só surge quando há uma mente a ser renunciada. Verdadeiramente falando, não existe mente. Quando lhe dizem: “Aqui tem um fantasma”, a criança ignorante é levada a acreditar na existência do fantasma inexistente, ficando sujeita ao medo, ao sofrimento e aos incômodos. Da mesma forma no imaculado Brahman, ao imaginar coisas que não existem – como isto e aquilo – uma falsa entidade conhecida como mente surge como algo aparentemente real, funcionando como isto e aquilo e mostrando-se incontrolável e poderosa ao incauto; porém, para o buscador senhor de si e dotado de discernimento, conhecedor da natureza da mente, ela é fácil de ser abandonada. Só um tolo, ignorante da natureza da mente, diz que é muito difícil.

D: Qual é a natureza da mente?

M: Pensar nisto e naquilo. Na ausência de pensamento, não existe mente. Extinguindo-se os pensamentos, a mente permanecerá apenas em nome, tal como o chifre de uma lebre; desaparecerá como uma não entidade, como o filho de uma mulher estéril, o chifre de uma lebre, ou uma flor no céu. Isto também é mencionado no Yoga Vasishta.

D: Como?

M: Vasishta diz: “Ouve, ó Rama, nada há chamado ‘mente’. Assim como o espaço existe sem forma, também a mente existe como um vazio inanimado. Permanece apenas como nome; ela não tem forma. Não está no exterior, nem no coração. Entretanto, como o espaço, a mente, embora não tenha forma, preenche tudo.

D: Como pode ser assim?

M: Onde quer que o pensamento surja como isto e aquilo, lá estará a mente.

D: Se existe mente onde quer que haja pensamento, mente e pensamento são diferentes?

M: O pensamento é o sinal da mente. Quando surge um pensamento, pressupõe-se uma mente. Na ausência de pensamentos, não pode haver mente. Portanto, a mente nada mais é do que pensamento. O pensamento é, em si, a mente.

D: O que é “pensamento”?

M: “Pensamento” é imaginação. O estado livre de pensamentos é a Suprema Bem-aventurança (Sivasvarupa). Os pensamentos são de dois tipos: a evocação de coisas experienciadas e não experienciadas.

D: Para começar, por favor diga-me o que é “pensamento”.

M: Os sábios dizem que nada mais é do que pensar em qualquer objeto externo como isto ou aquilo, é ou não é, deste ou daquele jeito, etc.

D: Como isto pode ser classificado sob o título de coisas experienciadas e não experienciadas?

M: Dos objetos dos sentidos (como o som, etc.) já experienciados – como “eu vi”, “eu ouvi”, “eu toquei”, etc. – pensar neles como tendo sido vistos, ouvidos e tocados é evocar coisas já experienciadas. Trazer à mente objetos dos sentidos não experienciados é o pensamento sobre coisas não experienciadas.

[…]

D: Como, então, é possível extinguir a mente?

M: Esquecer tudo é o meio supremo. O mundo não surge, a não ser pelo pensamento. Não pense e o mundo não surgirá. Quando nada surge na mente, a própria mente é perdida. Portanto, não pense em nada; esqueça tudo. Este é o melhor modo de matar a mente.

D: Alguém já disse isto antes?

M: Vasishta assim falou a Rama:

Vasishta: Elimine os pensamentos de todos os tipos – de coisas apreciadas, não apreciadas, ou outras. Como a madeira, ou a pedra, permaneça livre de pensamentos.

Rama: Devo eu esquecer tudo, completamente?

Vasishta: Exatamente, esqueça tudo completamente e permaneça como a madeira ou a pedra.

Rama: O resultado será a estagnação, como a das pedras ou da madeira.

Vasishta: Não é assim. Tudo isso é apenas ilusão. Esquecendo a ilusão, você estará livre dela. Embora pareça estar estagnado, você será a própria Beatitude. O seu intelecto ficará inteiramente claro e aguçado. Sem se embaraçar na vida mundana, mas parecendo ativo aos outros, permaneça como a própria Beatitude de Brahman e seja feliz. Diferentemente da cor azul do céu, não permita que a ilusão do mundo renasça no puro Espaço do Ser-Consciência. Esquecer essa ilusão é o único modo de matar a mente e permanecer como Bem-aventurança. Mesmo que Shiva, Vishnu ou o Próprio Brahman sejam seus mestres, a realização não é possível sem este meio. Sem esquecer tudo é impossível estabelecer-se enquanto Ser. Portanto, esqueça tudo, inteiramente.

D: Não é muito difícil?

M: Embora seja difícil para o ignorante, é muito fácil para os poucos que discernem. Nunca pense em nada, exceto no Brahman único e ininterrupto. Praticando isso longamente, você esquecerá facilmente o não-Ser. Não pode ser difícil ficar quieto, sem pensar em nada. Não deixe nenhum pensamento surgir na mente; pense sempre em Brahman. Assim, todos os pensamentos mundanos desaparecerão e só restará o pensamento de Brahman. Quando isso se tornar firme, esqueça até mesmo isso e, sem pensar “eu sou Brahman”, seja o próprio Brahman. Não pode ser difícil de praticar.

Agora, meu sábio filho, siga este conselho: pare de pensar em qualquer outra coisa que não seja Brahman. Com esta prática, a sua mente será extinta; você esquecerá tudo e permanecerá puramente como Brahman.


[Trechos de ensinamentos retirados do livro Advaita Bodha Deepika, Capítulo VIII, “A Extinção da Mente” (manonasa).]



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89 Respostaspara “Esquecer tudo é o meio supremo”

  1. Bruna disse:

    Olá, esse sábio, Ramana Maharshi, já comentou algo sobre o homossexualismo? Ele aprovava ou desaprovava? Qual a opinião do criador desse site sobre o referido tema? ALgum outro mestre já comentou sobre esse tema? O que foi que ele disse? brigadd

  2. niraj disse:

    Cara Bruna,

    Nunca li nenhum ensinamento do Ramana (ou do Papaji ou Nisargadatta) sobre o tema, nem de outros mestres advaita. Contudo, a mentalidade desses mestres não é de julgamento ou criticismo, então acho difícil que qualquer um deles “desaprovasse” ou “aprovasse”.
    Quanto a minha opinião pessoal, no momento não me vem nada em especial para comentar a respeito. Mas certamente não sou preconceituoso quanto a isso.

  3. Frederico disse:

    Ramana permitia o consumo de ovo? Será que, assim como o leite e derivados, o consumo de ovos não atrapalham na “realização” do Ser?

  4. niraj disse:

    Sri Ramana não era um mestre do tipo de proibir ou mandar. Contudo, ele recomendava o vegetarianismo sempre que questionado a respeito, dizendo que ajuda a manter uma mente sattvica (pura, calma, equilibrada), o que é a melhor ajuda para a Realização. Certa vez quando questionado especificamente sobre ovos, ele mencionou que ovos também tem a vida em potencial, então seria melhor não comer.

  5. Thiago Serpa disse:

    Olá Niraj, alguma chance de o Mooji vir a Porto Alegre novamente? Namaste… Thiago!

  6. niraj disse:

    Thiago, chance sempre tem, mas no momento não há nenhum plano. O Mooji está agora mais focado em construir o seu Centro de Satsangs em uma terra que comprou em Portugal.

  7. João Rocha disse:

    Bruna, o Eu Sou não tem atributos, portanto todo o resto tais como a raiva,
    a bondade, o orgulho, os pensamentos, a erudição, o homosexualismo e todo o resto bom ou ruin, tudo, não importam.
    Se eu me pergunto, no instante em que esse desejo aparece, “para quem ele aparece?” “Quem em mim sente atração sexual?” Você verá que todas essas manifestações são vista por “algo que
    não sei dizer o que é”, no entanto “a
    observação aconteceu”. Essa é a prática
    no dia a dia. Se um pensamento quiser
    dissertar sobre o assunto, nos perguntamos para quem ele ocorre?, quem está pensando?. Se eu tiver fome, “quem em mim tem fome”?, o que é a fome? Se eu caminhar, “quem está dando a ordem para
    que os passos sejam executados. É um trabalho com coisas simples, do dia
    a dia. Não se deixe seduzir por uma resposta mental, e se ela aparecer também
    está sujeita a inquirição “para quem ela apareçe?”, “quem em mim pensa?” . Com o tempo aprendemos a reconhecer “o que não sou” sem reagir, e um silêncio aos poucos aparecerá. O que é esperado daqueles que buscam seriamente é que tentemos “lembrar de praticar sempre”, em qualquer lugar, sem filosofia.

  8. Celshankaracharia disse:

    Se seus pensamentos forem água descendo de uma cachoeira… Onde está a cachoeira ??
    Quem pensa é o homem do mundo, o homem de Deus vive no completo não pensar…
    O silencio é a verdadeira PAZ !!

    OM PAZ PAZ PAZ

  9. Celshankaracharia disse:

    O Atman é o não pensar…
    Só Nele está a Bem-Aventurança…
    O pensar é um labirinto que prende o Atman na ilusão de que Ele é apenas o corpo físico..
    Vamos gente, Realizem o Atman Já!!!
    Ele está tão perto de vocês,ao lado de seus pensamentos, tão perto que cegam à todos!!!
    Ele acorda com você, vive o dia todo com você, vai dormir com você e mesmo assim não O conheces ???
    Está vida é realmente uma Grande Aventura!!

    OM PAZ PAZ PAZ

  10. Michael disse:

    Olá Bruna, aqui neste site tem um belo pensamento sobre homossexualidade vale a pena conferir http://www.jeshua.net/por/qa.htm

  11. Samuel Pelegrini disse:

    Querida Bruna,

    Sexualidade, seja ela qual for, é produto do ego, da mente, portanto, seja hétero ou bi ou homossexualidade etc, isso não faz diferença alguma. Aquele conhecimento acumulado que é a pessoa em si se expressa conforme foi formado ao longo do tempo, portanto, seja simplesmente você, para ser você mesma você não precisa fazer nada, essa é a realização não-dual. Sexualidade cada um tem a sua própria e não há nada errado nisso. O corpo está interessado apenas em sobreviver e reproduzir, portanto, a sexualidade nada tem a ver com esse fator.

    Beijos

  12. Raphael Santos disse:

    Boa tarde,
    Meu nome é Raphael.
    A algum tempo venho praticando a meditação e só consegui evoluir quando reconheci a mente, os pensamentos e o intelecto.
    É incrível!
    Estou no inicio de uma jornada e tenho as minhas dúvidas como por exemplo:
    Se o mundo como conhecemos é formado pelos pensamentos como não ficarmos felizes com os nossos avanços tecnológicos? Esses avanços partiram de um pensamento.
    O estado de não mente tem qual objetivo?
    É abrir mão dos avanços materialistas, do corpo?
    Ou o estado de não mente tem o potencial de nos levar a avanços ainda maiores?

    Agradeço a atenção.

    Raphael Santos.

  13. niraj disse:

    Boa tarde Raphael!

    Não há nada de errado com os avanços tecnlógicos nem na facilidade que eles nos dão. Não é necessário “abrir mão” dos avanços materiais para mergulhar no seu Ser e descobrir quem você é. Apenas é necessário abandonar a identificação e o apego com qualquer coisa, seja exterior ou interior.
    O “estado de não-mente” é nosso verdadeiro estado, é nosso Ser. A mente surge depois, “em cima”, e é um fenômeno observável dentro de nós.
    Com a meditação a mente tende a ficar mais criativa e clara e, nesse sentido, pode trazer mais “avanços” em outras áreas. Mas o seu propósito supremo não é este, mas sim a Iluminação.

    om,
    niraj

  14. Fredercio Carlos disse:

    Estava lendo alguns comentários na internet e percebi que Ramana nem Nisagardatha se filiam a doutrina reencarnacionista. Se eles não ensinam a reencarnação, o que eles ensinam? Achei muito complicado…

  15. niraj disse:

    Não sei se você pode dizer que eles se filiam ou não se filiam a qualquer doutrina. Mas o que é certo é que eles apontam para a realidade do nosso SER, além da alma que reencarna. E essa realidade não é individual e, portanto, não reencarna e nunca encarnou, nem mesmo agora.

  16. Fredercio Carlos disse:

    Eles dizem que a alma reencarna? Qual realidade não é individual? Não entendi direito esse ponto. É coletiva? Se pudesse tecer mais alguns comentários explicativos seria ótimo, pois deu um nó aqui na minha mente.

  17. niraj disse:

    Sugiro que você leia alguns dos textos em português que tem nesse site, porque eles exploram bem a matéria.
    Mas, tentando sintetizar: quando você busca interiormente “quem sou eu?” e descarta tudo o que é um fenômeno (diga-se, que tem nome/forma, que é perceptível), você chega à realidade do seu Ser, e daí percebe que este Ser não é individual, ele não tem forma nem limites. Logo, ele não pode “encarnar”; apenas aparenta fazê-lo.
    Dizer que é “coletivo” é melhor que dizer “individual”, mas ainda não é 100%. Este Ser não é individual nem coletivo, porque ele É mesmo antes da criação ser. Ele é o Ser de toda a criação, e mesmo do Criador (Deus), mas também existe quando nada disso existe.

  18. Fredercio Carlos disse:

    Nos satsangs atuais qual o tempo recomendado ideal de prática da autoinquirição? Falando de maneira totalmente prática, qual a sua sugestão prática e técnica para a autoinquirição, sei lá, algo com o que vc tenha perdido tempo e depois descobriu que era melhor não fazer. Estou com difculdades de fazer a autoinquirição na parte prática e técnica, pois pergunto a mim mesmo quem sou eu e fico esperando uma resposta, mas a impressão que tenho é de que não está acontecendo nada.

  19. niraj disse:

    Frederico,

    No início seria ideal separar uns 10 ou 20 minutos por dia para esta prática, e com o tempot você pode aumentar. Também deves tentar trazer essa prática, aos poucos, para as outras atividades diárias.
    A autoinquirição não é uma pergunta em busca de uma resposta, nem um esperar. Escrevi um artigo expondo mais detalhadamente a prática. Veja aqui: http://advaita.com.br/ramana-maharshi/quem-sou-eu/
    Se tiver dúvidas, volte a entrar em contato.

  20. Fredercio Carlos disse:

    Sim, eu já tinha lido esse artigo. Mas na hora de sentar e começar… aí tudo fica difícil. No quê eu me concentro? O que fazer com a minha respiração? E a tal do coração do lado direito do peito? Parece que é uma forma muito abstrata de meditar, acho que pra mim o mais fácil seria concentrar entre as sombrancelhas ou algo assim. Acho que está faltando algo que eu ainda não entendi, algo prático.

  21. niraj disse:

    Você pode começar se concentrando na respiração – isso significa colocar toda a sua atenção no movimento da respiração. Quando você está inspirando, está completamente consciente da sensação do movimento da respiração no seu nariz. O mesmo quando está expirando.
    Com o tempo, praticando diariamente, a sua mente vai ficar bem calma, e a sua atenção vai ficar mais afiada.
    Nesse ponto você pode começar a direcionar a atenção para aquele que está consciente do movimento da respiração – ou seja, você enquanto consciência. Isso significa que sua atenção passa a se focar no sujeito (consciência) ao invés do que no objeto (respiração).

    É muito natural, que no início isso pareça muito abstrato, é como explorar um mundo mais sutil, desconhecido. Mas com o tempo você vai se sentir mais confortável fazendo isso. Apenas continue, e com o tempo tudo ficará mais claro. Não há nenhum “segredo” além disso.

    A autoinquirição não é se concentrar no lado direito do peito, mas sim concentrar a atenção na consciência.

  22. João Rocha disse:

    Se o Niraj me permite deixo um texto do livro “Ramana Maharshi e o Caminho do Autoconhecimento” que é :

    “Não fixe sua atenção em todas estas coisas mutáveis da vida, morte e fenômenos. Não pense até mesmo no ato de vê-las ou percebê-las, mas apenas Naquilo que Vê todas essas coisas e que é responsável por todas elas.

    Isto vai parecer quase impossível no começo, mas gradativamente o resultado será sentido.

    É preciso anos de prática firme e diária, e isto é como um mestre é feito.

    Dê um quarto de hora por dia para essa prática. Tente manter a mente inabalavelmente fixada Naquilo que Vê. Ele está dentro de você.

    Não espere descobrir que ‘Isso’ é algo definido em que a mente possa se fixar facilmente; não será assim.

    Embora se leva anos para descobrir que “Aquilo”, o resultado desta concentração será vista em quatro ou de cinco meses – em todos os tipos de clarividência inconsciente, em paz de espírito, no poder de lidar com problemas, no poder todo, mas sempre poder “inconsciente”.

    Eu lhe dou esse ensinamento com as mesmas palavras que o Mestre usa para ensinar os Chelas.

    De agora em diante, deixe que toda sua atenção, na meditação, não seja no ato de ver, nem sobre o que você vê, mas inamovívelmente Naquilo que Vê.

  23. João Rocha disse:

    Niraj, gostaria de te mandar um texto, como
    faço?
    At.
    João Rocha

  24. Niraj disse:

    Oi João!

    É só me mandar um email: omniraj@gmail.com

  25. Xandão disse:

    Olá a todos! Conheço este site mas fazia tempo que não entrava nele. Gostei muito do texto, e mais ainda dos comentários.

    Comecei a prática da meditação em meados de 2010, mas depois parei. Ela funciona.

    E, olhando os comentários aqui fiquei muito comovido com uma resposta aí acima “Vamos gente, realizem o Atman”.

    Eu acredito que é possível. É que há muitos sites por aí falando só de teoria, teoria, mas aqui finalmente encontrei um espaço para a PRÁTICA.

    Hoje mesmo volto à prática da meditação.

    Obrigado ao Niraj e a todos que, com seus comentários deram importantes contribuições a mim e a todos os outros.

    Abçs,

  26. thiago disse:

    Oi, Ramana ou alguns de seus discípulos iluminados disse alguma coisa sobre como lidar com questões práticas como compromissos de trabalho, pagar contas, como lidar com isso sem pensar? A mente é necessária pra fazer essas coisas, como fazer isso sem a mente? Para falar ou explicar sobre a não existência da mente é necessário o uso de idéais e da mente… Gratidão!

  27. niraj disse:

    Oi Thiago,

    Usar a mente é necessário. Não é o uso da mente para assuntos práticos que causa ilusão – esse tipo de mente o sábio também tem. É a mente que fica viajando em desejos, emoções, lembranças, etc. que é o problema. Ou seja, o problema é a mente a serviço do ego, da identidade.

  28. thiago disse:

    Oi então a morte da mente à qual Ramana se refere seria a morte da “mente inferior” associada ao ego. Porque mesmo um mestre precisa usar conceitos e pensamentos para falar do que É. Grato pela explicação.

  29. niraj disse:

    Oi Thiago,

    Pode-se dizer que sim. É a morte de um “modus operandi” da mente – o do ego. Segundo Ramana, o iluminado ainda tem mente, mas ela é puro sattva (harmonia, pureza).
    Tudo continua normal – montanhas são montanhas e rios são rios. Mas algo não está mais lá. Um “nó” foi desatado. E não há mais sofrimento ou conflito nenhum.

  30. thiago disse:

    Segundo Ramana, esse estado sem conflitos uma vez atingido dura para sempre ou pode se entrar e voltar ao estado identificado com o ego mente?
    Isso teria alguma coisa a ver com o Samadhi ou o Samadhi seria um outro estágio da Consciência, segundo Ramana onde tudo é pura Luz? Obrigado pelas respostas

  31. niraj disse:

    Thiago:

    Sim.
    O estágio que me referi é o que Sri Ramana e vários outros chamam de Samadhi.

  32. thiago disse:

    Oi Niraj, talvez você conhecendo mais os ensinamentos do Ramana possa me ajudar.
    Quando fazemos a autoinquirição temos que eliminar os pensamentos associados ao eu, certo? Como ter só o pensamento-sentimento “Eu Sou” se tudo a nossa volta é pensamento, e para qualquer ação que devamos empregar é necessário pensar? Pensamentos como: Eu tenho que ir no banco. Ou eu tenho que tomar banho, ou eu tenho que trabalhar. Como realizar essas tarefas sem pensar? Afinal quem tem que realizar essas coisas não é o Eu Real ou é?

    No momento em que me sento para meditar daí da pra abandonar os pensamentos ligados ao eu mas em atividade, não sei como proceder. O que os Mestres diziam sobre isso?
    Não pense em nada associado ao eu e veja no que dá?
    Grato.

  33. thiago disse:

    Se seguirmos totalmente o que fala esse texto la de cima, acho que seria impossível levar uma vida no mundo. Como esquecer tudo e ainda resolver problemas práticos do dia a dia? Obrigado mais uma vez!

  34. niraj disse:

    Entendo o teu ponto. É uma pergunta que eu mesmo me fiz por muito tempo. Pelo menos nos textos do Ramana, não se encontra muita luz sobre isso, pelo menos não diretamente. Mas no Mooji e Nisargadatta tem mais.

    Volto ao meu ponto inicial na nossa conversa: esses pensamentos práticos, cotidianos, em geral não carregam nenhuma vasana consigo. Se carregarem, naquele momento questione interiormente, fazendo a autoinquirção. Mas se o tipo de pensamento é só “será que eu cozinho arroz ou pasta para o almoço hoje”, não se preocupe com isso. Você pode até perguntar: “quem vai comer? Quem sou eu que percebe este pensamento”. Isso é bom. Mas não lhe impede de fazer a ação.

    Respondi a tua pergunta?

  35. thiago disse:

    Acho que o objetivo da pergunta é focar no Ser interno e nem tanto a resposta certo? Porque se tentamos responder com a mente a impressão que dá é que qualquer ação é originada pelo ego, uma vez que o Ser não precisa de nada, certo? Eu sei que o Ser também age dentro da ilusão uma vez que os Mestres falam e fazem coisas, talvez com mais prática consigamos discernir quem está agindo…ou até quem está pensando…

    Essa questão anterior é um pouco difícil de responder, se olharmos o diálogo acima que diz:
    Vasishta: Elimine os pensamentos de todos os tipos – de coisas apreciadas, não apreciadas, ou outras. Como a madeira, ou a pedra, permaneça livre de pensamentos.

    Rama: Devo eu esquecer tudo, completamente?

    Vasishta: Exatamente, esqueça tudo completamente e permaneça como a madeira ou a pedra.

    Rama: O resultado será a estagnação, como a das pedras ou da madeira.

    Vasishta: Não é assim. Tudo isso é apenas ilusão. Esquecendo a ilusão, você estará livre dela. Embora pareça estar estagnado, você será a própria Beatitude. O seu intelecto ficará inteiramente claro e aguçado. Sem se embaraçar na vida mundana, mas parecendo ativo aos outros, permaneça como a própria Beatitude de Brahman e seja feliz. Diferentemente da cor azul do céu, não permita que a ilusão do mundo renasça no puro Espaço do Ser-Consciência. Esquecer essa ilusão é o único modo de matar a mente e permanecer como Bem-aventurança. Mesmo que Shiva, Vishnu ou o Próprio Brahman sejam seus mestres, a realização não é possível sem este meio. Sem esquecer tudo é impossível estabelecer-se enquanto Ser. Portanto, esqueça tudo, inteiramente.

    Fica difícil de compreender como levar a vida e fazer isso ao mesmo tempo. Mas vamos tentando, rsrs.
    Outra questão que tem me aparecido, o que os mestres advaitas dizem em relação aos sentimentos? Eles parecem só falar de como lhe dar com pensamentos mas e os sentimentos que muitas vezes surgem sem explicação racional? Por mais que eles estejam relacionados com pensamentos não conseguimos detecta-los. Eles também devem ser criações da mente mas são mais obscuros… Grato pela ajuda!

  36. niraj disse:

    Oi Thiago,

    Durante os momentos dedicados à prática da meditação sentado, dá para fazer isso 100%. Já durante o dia-a-dia, o sábio “Sem se embaraçar na vida mundana, mas parecendo ativo aos outros, permaneça como a própria Beatitude de Brahman e seja feliz”. Ou seja, o sábio cumpre as atividades cotidianas comuns às suas circunstâncias humanas, com o auxílio da mente também. A mente funciona de maneira objectiva, impessoal, mais clara. É quase um “pensar sem pensar”.
    Este é o ideal, que é vivido com o tempo e a prática.

    Todo sentimento e emoção é secundário ao pensamento – tem sempre um pensamento que surge antes, embora normalmente não seja detectado. Com o tempo e a prática, a mente vai ficando mais aguçada e passamos a sempre perceber a semente-pensamento de cada sentimento. Antes disso, parece que eles “surgem do nada” e que são fenômenos diferentes dos pensamentos, e mais poderosos. Mas na verdade eles são apenas árvores que cresceram com a semente de algum pensamento. Por trás de toda a sua “presença” tem sempre um pensamento, e nós temos o poder de identificar isso e questionar ou abandonar esse pensamento raiz. Daí a árvore caí. Isso é o domínio da mente.

  37. thiago disse:

    Obrigado, mas é o fato de que eles dizem para esquecermos todos os pensamentos?
    Talvez seja necessário um período de meses, talvez anos, em que não se pensa em nada para se chegar a fonte estando isolado de tudo, não?
    Grato.

  38. niraj disse:

    Sim, abandonar internamente o apego a qualquer pensamento. Os pensamentos podem surgir em um momento, mas esqueça eles no momento seguinte.
    Certa vez perguntaram ao Bhagavan: “É difícil abandonar a raiva, o desejo, o orgulho, etc.”. Ao que Bhagavan respondeu: “A única coisa que você precisa abandonar são pensamentos.”

    Sobre a prática e isolamento, na minha experiência períodos diários de isolamento (externo e interno) são indispensáveis. Digamos, de 30 minutos a 2 horas por dia, todo o dia. Além disso, certos períodos por ano em que ficamos focados apenas na prática o dia todo, como um retiro de uma semana por ano, são acréscimos excelentes.

    Estabelecido esses “espaços”, acredito que estar em contato com as pessoas e a sociedade é mais útil à busca do que viver isolado em uma montanha. Esses contatos com o mundo e as pessoas são excelentes oportunidades para nós vermos (e “enfrentarmos”) as vasanas que ainda existem em nós.

  39. thiago disse:

    Te fiz um convite pelo face, para podermos conversar mais se não for incomodo pra vc. abs!

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