Morte e Renascimento segundo Ramana Maharshi


Morte e Renascimento segundo Ramana Maharshi



[Trecho de ensinamentos extraídos do livro “Os Ensinamentos de Sri Ramana Maharshi em Suas Próprias Palavras“. Os trechos recuados para a direita são os comentários do editor da obra, Arthur Osborne.]


Em nenhum outro ponto o Bhagavan mostrou mais claramente que a teoria deve ser adaptada ao nível da compreensão do buscador do que quando ele respondia perguntas sobre a morte e renascimento. Para aqueles que eram capazes de compreender a teoria não-dualista em sua forma pura ele apenas explicava que esta pergunta não surge, pois como o ego não tem uma existência real agora, também não o terá após a morte.


D.: As ações de uma pessoa nesta vida afetam os seus nascimentos futuros?

B.: Você nasceu? Por que você se preocupa com nascimentos futuros? A verdade é que não existe nascimento e nem morte. Que aquele que nasceu pense sobre a morte e outros consolos para ela.

D.: A doutrina Hindu da reencarnação é correta?

B.: Não é possível dar uma resposta definitiva. No Bhagavad Gita, por exemplo, até a presente encarnação é negada.

D.: A nossa personalidade não é sem começo?

B.: Primeiro descubra se ela existe e depois faça a pergunta. Nammalwar diz: “Por ignorância tomei o ego pelo Eu Real, mas com o conhecimento correto [percebemos que] o ego não existe e você permanece como Eu Real.” Tanto os dualistas quanto os não-dualistas concordam que a Auto-Realização é necessária. Primeiro atinja-a e depois faça outras perguntas. Dualismo ou não-dualismo – isso não pode ser resolvido por meio de teorias apenas. Se o Eu Real for realizado, esta pergunta não surgirá.

Tudo o que nasce deve morrer; tudo o que é adquirido será perdido. Você nasceu? [Não,] você existe eternamente. O Eu Real nunca pode ser perdido.


O Bhagavan, de fato, desencorajava a preocupação com esses temas metafísicos, já que eles apenas distraem a pessoa do esforço de realizar o Eu Real aqui e agora.


D.: Dizem que depois da morte temos a escolha de desfrutar dos nossos méritos ou dos nossos deméritos, que depende apenas de nossa escolha. Isto é assim mesmo?

B.: Para que perguntar sobre o que acontece após a morte? Para que perguntar se você nasceu ou não, se você colhe os frutos de seu karma passado ou não? Você não terá essas perguntas daqui a pouco quando estiver dormindo. Por quê? Por acaso você agora é uma pessoa diferente do que era enquanto dormia? Não, você não é. Descubra porque essas perguntas não surgem quando você está dormindo.


Ocasionalmente, entretanto, o Bhagavan aceitava um ponto de vista menos elevado para aqueles que não podiam ater-se à teoria não-dualista pura.


B: No Bhagavad Gita Sri Krishna primeiro diz a Arjuna, no Capítulo II, que ninguém nunca nasceu e depois, no Capítulo IV, que “você e eu já passamos por inúmeras encarnações. Eu as conheço mas você não.” Qual dessas declarações é verdadeira? O ensinamento varia de acordo com a compreensão do ouvinte.

Quando Arjuna disse que não iria lutar contra e matar seus parentes e professores para conquistar o reinado, Sri Krishna disse: “Não é que estes, você ou eu, não éramos antes, não somos agora, nem seremos depois. Ninguém nasceu, ninguém morre e não será assim daqui para a frente.” Ele posteriormente desenvolveu este tema, dizendo que ele havia dado instruções ao Sol e, através dele, a Ikshvaku; e Arjuna indagou como isso seria possível já que Krishna havia nascido apenas há alguns anos atrás e eles tinham vivido em eras passadas. Então Krishna entendeu seu ponto de vista e disse: “Sim, você e eu já passamos por inúmeras encarnações. Eu as conheço mas você não.”

Essas declarações parecem contraditórias, mas cada uma é verdadeira de acordo com o ponto de vista do ouvinte. Cristo também disse “Antes de Abraão ser, eu sou.”

Assim como nos sonhos você acorda depois de várias experiências novas, também depois da morte um novo corpo é encontrado.

Assim como os rios perdem a sua individualidade quando deságuam no oceano – e mesmo assim as águas evaporam e descem como chuva de volta para o rio e depois para o oceano -, os indivíduos também perdem a sua individualidade quando vão dormir mas retornam novamente de acordo com as suas tendências inatas prévias. Similarmente, na morte o ser também não é perdido.

D.: Como isso?

B.: Veja como uma árvore cresce novamente depois de seus galhos serem cortados. Enquanto a fonte da vida não é destruída, ela continua crescendo. Da mesma forma, no momento da morte as tendências latentes retornam ao coração, mas não são destruídas. É assim que os seres renascem.

No entanto, de um ponto de vista mais elevado ele responderia:

Em verdade não existe nem semente nem árvore – existe apenas Ser.


Ocasionalmente ele explicava o processo mais detalhadamente, mas sempre com a ressalva de que na verdade só existe o Eu imutável.


D.: Quanto tempo dura o intervalo entre a morte e o renascimento?

B.: Pode ser longo ou curto, mas o Homem Realizado não passa por isso; ele é absorvido diretamente pelo Ser Infinito, segundo a descrição do Brihad Aranyaka Upanishad. Alguns dizem que, após a morte, aqueles que tomam o caminho da luz não mais renascem, enquanto que aqueles que tomam o caminho da escuridão renascem depois de ter colhido os frutos do seu karma (destino auto-produzido) em seus corpos sutis.

Se os méritos e deméritos de um homem são iguais ele renasce imediatamente na Terra; se os seus méritos superam seus deméritos ele primeiro vai ao céu em seu corpo sutil, já se seus deméritos superam seus méritos ele vai primeiro ao inferno. Mas em ambos os casos ele renasce posteriormente na Terra. Tudo isso é descrito nas escrituras, mas na verdade não existe nem nascimento nem morte; cada um simplesmente permanece como realmente é. Apenas isso é a Verdade.


Maharishi nunca aceitou que as diferentes formas de se expressar ou de formular as doutrinas entre as religiões representassem contradições substanciais, já que a Verdade para a qual elas apontam é Uma e Imutável.


D.: É correta a visão Budista de que não existe uma entidade contínua que funcione como uma alma individual? Ela está de acordo com a doutrina Hindu de um ego que reencarna? A alma é uma entidade contínua que reencarna inúmeras vezes, como prega a doutrina Hindu, ou é um mero conglomerado de tendências mentais, como ensina a Budista?

B.: O Eu Real é contínuo e não é afetado por nada. O ego que reencarna pertence ao plano inferior, o do pensamento. Ele é transcendido pela Auto-Realização.

As reencarnações acontecem devido a um falso desdobramento do Ser, e são por isso negadas pelos Budistas. O estado humano é o resultado de uma junção do insensível e do sensível.


Às vezes a questão não era a reencarnação em si, mas sim a dor da perda de um ente querido. Uma senhora que veio do norte da Índia perguntou ao Bhagavan se era possível conhecer o estado póstumo de um indivíduo.


B.: Sim, é possível, mas para que tentar? Esses fatos são tão irreais quanto a pessoa que os vê.

S.:  O nascimento de uma pessoa e sua vida e morte são reais para nós.

B.: Sim, como você erroneamente se identifica com o corpo você pensa o outro como sendo um corpo também. Mas nem você nem ele são um corpo.

S.: Mas a partir de meu próprio nível de entendimento eu vejo a mim mesma e ao meu filho como reais.

B.: O nascimento do pensamento “eu” é o nascimento da pessoa, e a sua morte é a morte da pessoa. Depois de surgir o pensamento “eu”, a errônea identificação com o corpo também surge. Se você se identifica com o corpo você erroneamente identifica os outros com seus corpos também. Assim como você pensa que o seu corpo nasceu, cresceu e vai morrer, você também pensa que o corpo do outro nasceu, cresceu e morreu. Você pensava sobre o seu filho antes dele nascer? O pensamento veio depois dele nascer, e continua após sua morte. Ele só é o seu filho na medida em que você pensa nele. Para onde ele foi? Para a fonte de onde ele surgiu. Enquanto você continuar existindo ele continua também. Mas se você deixar de se identificar com o corpo e realizar o Eu Real essa confusão desaparecerá. Você é eterna, e descubrirá que os outros também o são. Enquanto isso não for realizado haverá sempre a tristeza e o desgosto, fruto dos falsos valores que são produzidos pelo conhecimento errôneo e pela identificação errônea.


Na ocasião da morte do Rei George V dois devotos estavam discutindo o assunto no salão, e pareciam chateados. O Bhagavan disse: “O que importa para vocês quem morre ou o que é perdido? Morram vocês mesmos e se percam, tornando-se assim, com a extinção do ego, um com o Eu de todas as coisas.”


E, finalmente, sobre a importância da morte. As religiões em geral dão importância ao estado mental em que a pessoa morre, e a seus últimos pensamentos antes da morte. Mas o Bhagavan alertava as pessoas que é preciso estar bem preparado antes, caso contrário tendências mentais indesejáveis podem surgir com força demais, não podendo ser controladas.

D.: Se eu não puder me iluminar nesta vida, que eu possa pelo menos não esquecer da iluminação no meu leito de morte. Que eu possa ter um vislumbre da Realidade no meu último momento de vida, a fim de ter um bom estado no futuro!

B.: No Capítulo VIII do Bhagavad Gita é dito que o último pensamento de uma pessoa no momento da morte determina o seu próximo nascimento. Mas é necessário experimentar a Realidade agora, nesta vida, a fim de poder experimentá-la no momento da morte. Reflita se este momento é de qualquer maneira diferente do último momento na morte, e tente estar no estado desejado.


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  • Peregrino

    Ou seja, em vez de se preocupar com vida ou morte, primeiro descobri se eu nasci! Ramana vai sempre à raiz, ao mais direto… O resto tudo é viagem da mente.
    Om Namo Bhagavate Sri Ramanaya!

  • katia

    Nao me canso de agradecer por estes textos. Muito obrigada. Mas tem algo frequente que vejo nas palavras dos iluminados: eles se referem à iluminacao como uma escolha!!!
    Ele dis: “Mas se você deixar de se identificar com o corpo e realizar o Eu Real essa confusão desaparecerá”. Como se fosse uma acao minha… como se eu tivesse uma escolha.
    … nao sei o q pensar disso…

  • É verdade, Katia. Bhagavan costumava dizer que tudo é predestinado, e que a única liberdade que temos é de nos identificar ou não nos identificar – e aqui está toda a diferença. A questão é que automaticamente estamos programados a nos identificar; então, com a prática espiritual passamos a ver que isso não é necessário, nem benéfico, e aprendemos a exercitar o poder de apenas ser, e observar impessoalmente tudo o que surge.

  • katia

    Muito obrigada, Niraj. Agora entendi!

  • Marcelo

    JAY GURU RAMANAYA!!!

    A encarnação da sabedoria! Meu eterno mestre rumo a realização, pq depois disso vou descobrir que mesmo Ele foi uma ilusão.

    OM NAMO MAHARSHI!

  • Luciano

    quando eu era pequeno, via televisão e pensava que os artistas eram anões para caberem dentro da caixa da TV e que moravam lá. Cresci e descobri que não era assim. Hoje, ja velho, descobri que tambem não “moro” em meu corpo e nem sou le e que tambem não sou “anão”. Eu apenas Sou.

  • Luciano Diniz

    Não há realização a fazer, nós já somos completos, não ha nada para acrescentar. Pense nisto AGORA, você É. Eis a paz de Ser Tudo, não sendo nada. Daí não há morte, nem nascimentos, apenas o silêncio do Eu Sou.

  • João Rocha

    Katia, gostei muito do seu depoimento, ele está rigorosamente correto. O Sr. Gurdjieff
    dizia que tudo que podemos fazer é escolher influências e é também o que dizia o Sr. Ramana no texto abaixo (do livro “Imortalidade Consciente”)

    “Q. Como minha mente pode ficar quieta se eu tenho que usá-la mais que as outras pessoas? Eu quero me isolar e abandonar a chefia do meu trabalho.”

    R. Não. Você deve permanecer onde está e continuar com o trabalho. Qual é a corrente subjacente que vivifica a mente e a abilita a fazer todo este trabalho?
    É o Ser. Portanto ele é a fonte real de toda a sua atividade. Simplesmente esteja consciente (aware) dela durante seu trabalho e não a esqueça. Contemple no pano de fundo (background) de sua mente mesmo quando trabalhando. Para fazer isso não se apresse, leve seu próprio tempo. Mantenha a lembrança da sua real natureza viva, mesmo quando trabalhando, e evite a pressa que a faz esquecer. Seja (deliberate) deliberado. Pratique meditação para aquietar a mente e torná-la consciente (aware) de sua verdadeira relação com o Ser que a suporta. Não imagine que é você que está fazendo o trabalho. Pense que é a corrente subjacente (underlying) que o está fazendo. Identifique-se com a corrente. Se você trabalha sem pressa, recordando, seu trabalho ou serviço não será, necessariamente um obstáculo.

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